"Ventos do Norte"

De 19 de março a 19 de maio 2021

PARA ALÉM DO NORTE

“Os ventos do norte
Não movem moinhos
E o que me resta
É só um gemido....

E o que me importa é não estar vencido”

Parto do trecho da música “Sangue Latino”[1], para iniciar este texto de trocas e compartilhamentos presentes na Mostra “Ventos do Norte”, do artista Mauricio Igor. A música me acompanha desde a infância, mas durante o processo curatorial, ao observar a pesquisa e experimentação realizada por Mauricio, a música retorna ampliando os sentidos da memória de outrora.

 

A música trata do processo de colonização espanhola e portuguesa da América Latina. Nesta realidade, os povos nativos e africanos foram obrigados a abandonarem suas identidades culturais, agregando as suas crendices ao catolicismo cristão. Se não aderissem ao sistema seriam torturados. Neste trecho da música “Os Ventos do Norte” simbolizam os colonizadores, que não faziam parte da mão de obra local, formada pelos povos reprimidos e escravizados, em uma história de lutas, sofrimentos e gemidos.

 

Ventos do Norte nos remete a metáfora conduzida pela música. Os aparelhos que se encontram na exposição movem moinhos insistentemente consertados pelos seus proprietários. Materializa, a partir das ações de Mauricio, um Brasil em meio as adversidades econômicas, sociais e políticas. Neste contexto, reflete sobre um país que convive com improvisos e resistências. No Brasil, vivemos em uma realidade de gambiarras, que se agregam não somente a objetos, mas em nosso cotidiano e em nosso processo histórico. Criamos  estratégias de improvisarmos a permanência de nossa própria existência. Dentro do contexto atual de negacionismos, somos objetos quebrados, machucados, diante de tantas feridas e perdas.

 

Mauricio Igor vem desenvolvendo no campo das artes visuais, experiências de trabalhos que partem de reflexões sobre o corpo não hegemônico, atravessando questões de identidades inseridas em temas sobre miscigenação, sexualidade e o cotidiano amazônico. Em Ventos do Norte , o artista fixa na cidade, por meio de lambes e panfletos, o desejo de conhecer os personagens que fazem parte de um universo de gambiarras. Assim alcança 06 ventiladores que resistiram ao tempo e ao seu não descarte, formados através de gestos que os adesivaram, amarraram, colaram, enrolaram, criando novos objetos que não somente amenizaram o calor dos lugares de onde vieram, mas construíram narrativas de vida e de sobrevivências, que passam a ser registradas por Mauricio nas entrevistas realizadas nestes encontros.

 

Em se tratando de ações artísticas que envolvem objetos, Josef Kosuth, em 1965, traz uma reflexão sobre os objetos por meio de uma série de obras, onde o artista apresenta o objeto, seu significado a partir de um dicionário, e uma fotografia do objeto. Ao apresentar suas séries aponta questões referentes a presença dos objetos enquanto conceito, não somente enquanto matéria. Mauricio Igor, traz no conjunto de sua obra: os objetos (ventiladores), o significado destes objetos a partir das narrativas de seus antigos donos, e o lambes que desencadeiam no vídeo que conta sua experiência com os antigos donos do artefato. O que interessa a Mauricio não é o objeto em si, nem os conceitos que carregam, mas as gambiarras e suas memórias, entender as histórias que concretizam a continuidade da existência dos ventiladores. Nas gambiarras estão um mundo sensível que apresentam invisíveis realidades em aparências ditas não perfeitas.

 

Os ventiladores - gambiarras e suas narrativas, apresentam uma metáfora de um percurso histórico mantido a base de improviso.  É um reflexo de um vento que sopra as adversidades econômicas e sociais, que partem da precariedade para solucionar uma necessidade especifica. Estes ventos pairam nas experiências de sobrevivência mantidas sob os aspectos de um povo, de uma cultura, de um lugar, de um país.

 

Os ventos das gambiarras que se encontram no Norte,  se reverberam no Brasil como um todo, se conectam na busca por experiências trazidas por histórias que nos firmam e nos mantem ativos. Em uma realidade com tantas injustiças, diferenças históricas, econômicas e sociais: “O que importa é não estar vencido”.

 

 

Heldilene Reale

Curadora Processual

[1] Composição de João Ricardo e interpretação musical de Ney Matogroso.

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