"Entre o Norte e o Nordeste"

       Quando falamos de Brasil é impossível não compreendermos que grande parte do país foi formado a partir das colaborações trazidas pelas regiões Norte e Nordeste, política, social, econômica e culturalmente. O Candeeiro traz, na 2ª edição da CHAMA, a proposta de integrar estas duas regiões por meio da Arte, apresentando nesta Mostra 05 artistas do Norte e 05 artistas do Nordeste. A seleção dos trabalhos contou com uma Comissão de Seleção formada pela produtora cultural residente em Fortaleza, Ivina Passos, pela curadora, pesquisadora e crítica de arte, residente em Belém, Marisa Mokarzel e pela pesquisadora, produtora e curadora Sanzia Pinheiro, residente em Natal. Assim, a Mostra apresenta processos de criação dos artistas selecionados, exibidos a partir do formato Lambe. Do Norte apresentam-se os trabalhos de: Débora Oliveira, Karina Miranda, Miguel Moura, Rao Godinho e Samir Dams, e do Nordeste: Clodoaldo Castro, João Oliveira, G. Atos, Geovana França e Takará. A proposta da Chama deu-se no sentido de contemplar estas duas regiões que fazem parte da história de vida de seus idealizadores. Natan Garcia é cearense de Fortaleza e Heldilene Reale é paraense de Belém. Reacender os seus lugares neste momento de uma nova fase do projeto é de suma importância para reafirmar suas identidades e as trocas possíveis no circuito da arte, nesta nova fase do Candeeiro.
    A leitura dos trabalhos propõe uma imersão entre subjetividades, reafirmações, afetos, memórias e apagamentos, onde sugerimos os seguintes núcleos de leituras: Ao entrar na galeria cruza-se o olhar com a obra de Débora Oliveira, que propõe por meio da palavra "Xêro", a apresentação do que denomina como lowtech. Uma espécie de pixo digital feito em apps gratuitos (logo com baixa qualidade). Evidencia desta forma, uma palavra que carrega afetos, relações interculturais e gestos presentes nas duas regiões que formam a Mostra. Karina Miranda apresenta a palavra Kabocla, com cores presentes no grafismo urbano e em letras abertas em barcos na Amazônia. A palavra caboclo é uma das "sub-etnias" que existe no Brasil e que se originou a partir dos processos de miscigenação que ocorreram no período da colonização. Ao apresentar a palavra com a inicial "K" e voltada para o gênero feminino, nos aproxima da inicial de seu nome e aponta para a possibilidade de refletir sobre as mulheres amazônidas que se apresentam neste contexto entre processos colonizados. A frase presente na obra "Ginga com tapioca" do artista Clodoaldo Castro, nos remete ao universo da escrita popular  desenhadas em barracas nas praias do Rio Grande do Norte, nos aproxima de um bem imaterial tombado nacionalmente, porém circulado por um entorno que carrega uma certa precariedade e apagamentos, apontados em suas duas outras obras "Imprópria" e "Mercado".
          Geovana França em sua série "O apartamento" traz registros do imóvel recém comprado em sua mudança de São Paulo para Natal, sem mobílias, e com silêncio ensurdecedor. A artista aprecia nos pequenos objetos os detalhes de sua rotina e solitude. Rao Godinho, em sua série "Devastas emoções", reflete sobre as reconfigurações dos espaços da casa, ainda durante a quarentena provocada pela COVID 19. O artista aproxima, em gesto performático, uma rotina que deslocou nosso comportamento e experiencia de vida com o outro. Samir Dams em "Possíveis Paisagens" apresenta imagens do seu trânsito visual pela região do comércio em Belém do Pará. Ao observar fragmentos presentes nesta paisagem urbana propõe apresentar possíveis macro paisagens deste lugar e de seus elementos não humanos.
             Em "Manual 20.20" o artista João Oliveira revela um manual de confecção da arma artesanal, "Coquetel Molotov", utilizado em manifestações populares, em processos de luta social e rebeliões de setores que possuem direitos violados pelo próprio sistema. Já a artista Takará, em seus autorretratos denominados de experimentos "Obé Enu" "Obé Ori"e Obé Erun (boca de faca, cabeça de faca e cabelo de faca) conduz elementos que falam sobre luta, proteção e a reação de um corpo que sofre várias violências oriundas do racismo: silenciamento, violência psicológica e violência estética. Na obra "Narcisos Violentados em Warburg" o artista G. Atos, expõe processos que se conectam com o Atlas de Walburg, por meio de uma parede investigativa onde peças visuais juntam a trama, de desvendar um crime. O caso? O narciso violentado. Fechando a mostra temos o trabalho de Miguel Moura, que se utiliza da linguagem fotográfica e dos quadrinhos para criar narrativas usando como tema o autorretrato. Tem-se assim acesa a Chama!


Heldilene Reale
Natan Garcia